A paixão pelo paradigma (Ou "verdade para que?") Em um mundo repleto de possibilidades e escolhas, é grande o anseio por estabelecer padrões e modelos fixos de conduta e pensamento, de modo que tenhamos mais certezas sobre as verdades (ou mentiras) que nos cercam. Também é grande a tentação de rotular, classificar, dividir e separar tudo e qualquer coisa, de modo a tornar menos incerto o mundo e a vida moderna. Essa realidade parece abater também aqueles que se dedicam a pesquisar os fenômenos jurídicos e sociais. E falo por experiência própria. Há cerca de um ano finalizei meu TCC (trabalho de conclusão de curso) da faculdade de Direito. Foram meses de leituras espremidas entre o trabalho, as provas e demais atividades diárias. Ao final, tornei-me um ardoroso crítico do sistema penal, voltando-me ao paradigma da criminologia crítica e “desprezando” aquele defendido pelas vertentes tradicionais e positivistas de criminologia. Pouco depois, em curso de pós-graduação lato sensu, pude confrontar minhas idéias com ex-colegas de faculdade e notei que muitas de minhas convicções cediam diante de uma crítica mais consistente. Os debates fizeram com que reavaliasse meu próprio trabalho e constatei que, a partir do momento em que me filiara à nova criminologia, reduzi meu olhar crítico sobre ela. Enfim, acho que isso acaba acontecendo com todos. O método científico é de grande valia para a produção do conhecimento, mas acaba sendo abalado por essa “paixão pelo paradigma”, capaz de cegar nosso olhar crítico sobre determinado assunto. Assim, a discussão e o debate passam a girar mais em torno do paradigma em si do que acerca de um fato específico (um exemplo vulgar seria a não aceitação de políticas de esquerda por serem de esquerda e não por serem ineficazes). Na ocasião, um dos colegas me apresentou uma postura peculiar e muito interessante. Dizia não sustentar, a priori, qualquer bandeira ou teoria, preferindo avaliar cada caso específico de maneira crítica. Passado algum tempo, entendo tal postura muito promissora e pertinente para investigações científicas, principalmente porque exige grande cientificidade e honestidade intelectual. Porém, isso não significa que devemos desprezar toda e qualquer teoria ou paradigma científico (seria contraproducente ignorar todo o conhecimento acumulado), mas sim que é nosso dever reavaliar criticamente o paradigma por nós escolhido, tal qual fez Nietzsche quando, rompendo com uma tradição socrático-platônica secular, questionou: por que e para que a verdade? *** Postado por Carvalho
Escrito por Gomes, Pegorer & Carvalho às 23h43
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